O Mito Moderno da Evidência: Origem, Evolução e Limites do Empirismo

São João Maria Vianey, 04/03/2026

Parte 1 — A origem da ideia de que só devemos crer no que tem evidência

Uma das ideias mais difundidas na mentalidade moderna é a seguinte afirmação: “Só devemos acreditar naquilo para o qual existem evidências.” Muitas vezes essa frase aparece de forma ainda mais radical:“Só devemos acreditar no que pode ser provado cientificamente.” Hoje essa ideia parece quase óbvia para muitas pessoas. No entanto, ela é relativamente recente na história do pensamento humano e surgiu dentro de um contexto filosófico específico. Durante grande parte da história da civilização ocidental, o conhecimento humano nunca foi reduzido a um único método. Filósofos clássicos reconheciam que a verdade pode ser conhecida por diferentes caminhos. Entre os pensadores mais influentes dessa tradição estão Aristóteles e Tomás de Aquino. Para esses autores, o conhecimento humano possui diversas fontes legítimas, entre elas: a experiência sensível, obtida pelos sentidosa razão, capaz de demonstrar verdades universaiso testemunho confiável, base do conhecimento históricoa memória, que preserva experiências passadasa tradição intelectual, transmitida ao longo das geraçõesA experiência empírica sempre foi considerada importante. Contudo, ela nunca foi entendida como o único critério de verdade.Esse equilíbrio começou a mudar no início da era moderna. A virada intelectual da era moderna Entre os séculos XVI e XVII ocorreu uma transformação profunda na maneira como o conhecimento passou a ser compreendido na Europa.O avanço da ciência experimental levou alguns pensadores a defender que o conhecimento deveria ser reconstruído principalmente a partir da observação sistemática da natureza. Nesse contexto surge a figura de Francis Bacon. Bacon foi um filósofo inglês que propôs uma reforma do método científico. Em sua obra mais conhecida, Novum Organum, ele argumentou que o pensamento humano estava cheio de erros e ilusões que impediam o verdadeiro progresso do conhecimento.Ele chamou esses erros de “ídolos da mente”, isto é, preconceitos intelectuais que distorcem nossa compreensão da realidade.Para superar esses erros, Bacon propôs um novo método baseado em:observação sistemáticacoleta organizada de dadosexperimentaçãoindução progressivaSeu objetivo era reconstruir o conhecimento humano a partir da experiência cuidadosamente analisada.Essa proposta influenciou profundamente o desenvolvimento da ciência moderna.

Roger Bacon e a confusão comum

Muitas pessoas confundem Francis Bacon com outro pensador chamado Roger Bacon.Roger Bacon viveu no século XIII e era um frade franciscano interessado em matemática, óptica e experimentação científica. Ele valorizava o papel da observação no conhecimento, mas sua filosofia continuava inserida dentro da tradição medieval.Roger Bacon não defendia que a experiência fosse o único critério de verdade. Para ele, a razão, a teologia e a tradição intelectual continuavam sendo fundamentais.Portanto, embora ambos tenham valorizado a observação, a mudança intelectual que inaugura o empirismo moderno está muito mais associada a Francis Bacon do que a Roger Bacon.

O nascimento do empirismo moderno

A proposta de Francis Bacon abriu caminho para uma corrente filosófica que ficou conhecida como empirismo.Essa corrente sustenta que o conhecimento humano deriva principalmente da experiência sensorial. Entre os filósofos que desenvolveram essa tradição estão:John LockeDavid HumeJohn Locke defendia que a mente humana nasce como uma tabula rasa, uma “folha em branco” que vai sendo preenchida pelas experiências sensoriais.David Hume levou essa ideia ainda mais longe. Ele argumentou que todo conhecimento humano se baseia em impressões sensoriais, e que conceitos como causalidade ou substância não podem ser demonstrados racionalmente.Com isso, começou a surgir uma mentalidade que se tornaria extremamente influente na cultura moderna:só devemos acreditar naquilo que pode ser demonstrado empiricamente.Contudo, como veremos na próxima parte, essa afirmação aparentemente simples contém um problema lógico profundo.

Parte 2 — O problema lógico do empirismo radical

Na primeira parte vimos como a filosofia moderna, especialmente a partir de Francis Bacon, começou a valorizar cada vez mais o conhecimento baseado na observação e na experiência.Essa mudança foi extremamente importante para o desenvolvimento da ciência moderna. No entanto, com o passar do tempo, a valorização da experiência acabou se transformando em algo muito mais radical: a ideia de que somente aquilo que pode ser empiricamente verificado merece ser acreditado.Essa posição filosófica ficou conhecida como empirismo radical.Entre os pensadores que levaram essa ideia mais longe está David Hume.Hume defendia que todo o conteúdo da mente humana deriva das impressões sensoriais. Segundo ele, aquilo que chamamos de conhecimento nada mais seria do que a organização mental dessas impressões.Essa posição teve consequências profundas.Se todo conhecimento depende da experiência sensorial, então muitos conceitos fundamentais da filosofia tradicional tornam-se extremamente difíceis de justificar, como:causalidadesubstânciaidentidade pessoalleis universais da naturezaHume chegou a uma conclusão surpreendente: nem mesmo a ideia de causa pode ser demonstrada racionalmente.Segundo ele, quando observamos dois eventos acontecendo juntos repetidamente — por exemplo, uma bola de bilhar batendo em outra — nós apenas nos acostumamos a esperar que um evento siga o outro. Mas não podemos provar que exista uma verdadeira conexão necessária entre eles.Essa análise levou o empirismo a um problema muito sério: o ceticismo.A pergunta que derruba o empirismo radicalO problema aparece quando fazemos uma pergunta simples.Se alguém afirma:“Só devemos acreditar naquilo que pode ser empiricamente verificado.”então devemos perguntar:Essa própria afirmação pode ser empiricamente verificada?Podemos imaginar um experimento científico que demonstre que somente proposições empiricamente verificáveis são verdadeiras?A resposta é clara:não.Essa afirmação não é um fato observável da natureza. Ela não pode ser medida em laboratório, nem observada com instrumentos científicos.Ela é, na verdade, uma afirmação filosófica.A autocontradiçãoIsso cria um problema lógico.Se a afirmação“só devemos acreditar no que pode ser empiricamente verificado”for verdadeira, então ela mesma deveria ser empiricamente verificável.Mas ela não é.Portanto, surgem duas possibilidades:Se o princípio for verdadeiro, então ele mesmo não pode ser acreditado, porque não é empiricamente verificável.Se ele não precisa ser empiricamente verificável, então ele contradiz a própria regra que estabelece.Em ambos os casos, o princípio se torna logicamente incoerente.

Tipos diferentes de evidência

O erro fundamental do empirismo radical é confundir evidência empírica com evidência em geral.Na realidade, existem vários tipos diferentes de evidência.Evidência empíricaBaseada na observação dos sentidos.Exemplos:a água ferve a certa temperaturadeterminados metais conduzem eletricidadeplanetas orbitam estrelasEvidência lógicaBaseada na razão.Exemplos:2 + 2 = 4o todo é maior que a parteuma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempoEssas verdades não são descobertas por experimentos científicos.Evidência históricaBaseada em testemunhos e documentos.Sabemos, por exemplo, da existência de figuras históricas através de registros e testemunhos, não através de experimentos científicos.Evidência metafísicaBaseada em princípios fundamentais da realidade.Entre esses princípios estão ideias como:causalidadeidentidadenão contradiçãoEsses princípios são pressupostos pela própria ciência.O resultado inesperadoQuando o empirismo foi levado às suas consequências mais rigorosas, ele acabou produzindo algo que seus próprios defensores não esperavam: o ceticismo radical.Se apenas a experiência sensorial pode justificar o conhecimento, então muitas das coisas que tomamos como certas — inclusive as leis da natureza — tornam-se filosoficamente difíceis de justificar.Esse problema levaria, nos séculos seguintes, a uma tentativa de reformular a filosofia do conhecimento e também a um movimento intelectual que tentou transformar o empirismo em uma doutrina ainda mais radical.Esse movimento ficou conhecido como positivismo.Na próxima parte veremos como o positivismo tentou transformar a ideia de evidência científica em um princípio absoluto para todo o conhecimento humano — e por que essa tentativa acabou entrando em colapso filosófico.

Parte 3 — O positivismo e a tentativa de transformar a ciência em filosofia universal

Na parte anterior vimos que o empirismo radical enfrentou um problema lógico sério: o princípio de que “só devemos acreditar no que pode ser empiricamente verificado” não pode ele próprio ser verificado empiricamente.Apesar desse problema, a ideia de que a ciência deveria se tornar o modelo universal de conhecimento continuou a ganhar força ao longo do século XIX.É nesse contexto que surge o positivismo.

A filosofia positivista

O principal formulador dessa corrente foi Auguste Comte.Comte acreditava que a humanidade evoluía intelectualmente através de três estágios históricos:Estágio teológicoOs fenômenos são explicados por ação de deuses ou forças sobrenaturais.Estágio metafísicoOs fenômenos passam a ser explicados por princípios abstratos ou filosóficos.Estágio positivo (científico)O conhecimento passa a se basear exclusivamente na observação e na ciência.Segundo Comte, a humanidade estaria entrando nesse terceiro estágio, no qual a ciência substituiria progressivamente a filosofia e a teologia como fonte de conhecimento.Isso significava que perguntas tradicionais da filosofia — como as relacionadas à natureza da realidade, ao sentido da existência ou à moral — seriam consideradas problemas mal formulados ou irrelevantes.

A ciência como base da organização social

O positivismo não era apenas uma teoria sobre o conhecimento. Ele também tinha um projeto social.Comte acreditava que a sociedade deveria ser reorganizada de acordo com princípios científicos. Na visão dele, especialistas e cientistas seriam capazes de administrar a sociedade de forma racional e eficiente.Essa ideia contribuiu para o surgimento de uma mentalidade conhecida como tecnocracia — a crença de que problemas sociais e políticos podem ser resolvidos principalmente por especialistas técnicos.Curiosamente, Comte levou suas ideias a um nível ainda mais incomum. Ele chegou a propor uma espécie de sistema simbólico chamado “religião da humanidade”, que pretendia substituir as religiões tradicionais por uma forma secular de culto à humanidade e ao progresso científico.

O positivismo lógico

No início do século XX, um grupo de filósofos tentou radicalizar ainda mais essa visão.Esse grupo ficou conhecido como Vienna Circle.Os pensadores associados a esse movimento desenvolveram uma corrente filosófica chamada positivismo lógico.A tese central desse movimento era o chamado princípio de verificação:Uma afirmação só possui significado se puder ser empiricamente verificada.Segundo essa visão:proposições científicas seriam significativasproposições matemáticas seriam formalmente válidasproposições metafísicas seriam consideradas sem sentidoIsso significava que grande parte da filosofia tradicional seria descartada como linguagem vazia.Também significava que afirmações religiosas ou metafísicas seriam consideradas meras expressões emocionais, não proposições verdadeiras ou falsas.

O problema reaparece

No entanto, o positivismo lógico acabou enfrentando exatamente o mesmo problema que havia surgido no empirismo radical.O chamado princípio de verificação não podia ser empiricamente verificado.Ele não era uma descoberta científica sobre o mundo. Era uma afirmação filosófica sobre como o conhecimento deveria funcionar.Isso significava que o próprio princípio que sustentava o positivismo lógico não atendia ao critério que ele mesmo exigia.

O colapso filosófico

Diversos filósofos passaram a apontar essas dificuldades.Entre os críticos mais influentes estavam:Karl PopperWillard Van Orman QuinePopper argumentou que a ciência não funciona por verificação, mas por falsificação: teorias científicas não podem ser definitivamente provadas verdadeiras, apenas testadas e potencialmente refutadas.Quine, por sua vez, criticou a distinção rígida entre proposições analíticas e empíricas que sustentava parte da filosofia positivista.Ao longo das décadas de 1950 e 1960, essas críticas foram gradualmente desmontando os fundamentos do positivismo lógico.Hoje, dentro da filosofia acadêmica, esse movimento é geralmente considerado filosoficamente superado.Contudo, apesar de seu colapso no campo filosófico, a mentalidade que ele ajudou a difundir permaneceu profundamente enraizada na cultura moderna.Na próxima parte veremos como essa mentalidade deu origem ao que muitos chamam de cientificismo, e por que essa ideia continua influenciando o debate público até hoje.

Parte 4 — O cientificismo como religião secular

Nas partes anteriores vimos como a ideia de que apenas o conhecimento científico seria legítimo surgiu com o empirismo moderno, foi radicalizada pelo positivismo e acabou influenciando profundamente a mentalidade cultural contemporânea.Entretanto, algo curioso aconteceu ao longo do século XX.Mesmo depois de o positivismo lógico ter sido amplamente criticado e abandonado dentro da filosofia acadêmica, a mentalidade que ele ajudou a difundir continuou viva na cultura popular.Essa mentalidade é frequentemente chamada de cientificismo.

Ciência e cientificismo

É importante distinguir duas coisas muito diferentes.Ciência é um método poderoso para estudar fenômenos naturais. A observação sistemática, a experimentação e a formulação de teorias testáveis permitiram avanços extraordinários no conhecimento humano.Graças à ciência moderna, a humanidade desenvolveu tecnologias que transformaram profundamente a vida cotidiana.Contudo, o cientificismo é uma posição filosófica muito mais radical.O cientificismo sustenta que:apenas a ciência pode produzir conhecimento verdadeiro.Essa ideia ultrapassa os limites do próprio método científico.A ciência foi desenvolvida para estudar fenômenos naturais observáveis. Ela não foi criada para responder todas as questões humanas.Perguntas como:o que é o bem moralo que é a justiçaqual é o sentido da vidaqual é a natureza da consciênciaqual é o fundamento da realidadenão são perguntas que podem ser resolvidas por experimentos de laboratório.

O surgimento de uma religião secular

Apesar dessas limitações filosóficas, a ciência adquiriu um enorme prestígio cultural ao longo dos séculos XIX e XX.Esse prestígio acabou produzindo um fenômeno curioso: para muitas pessoas, a ciência passou a ocupar o lugar que antes era ocupado pela religião.Ela passou a funcionar como uma espécie de autoridade suprema de verdade.Assim, o cientificismo começou a assumir características semelhantes às de uma religião secular.Por exemplo:a ciência passou a ser vista como fonte absoluta de verdadecientistas passaram a ser tratados como autoridades quase sacerdotaiscertas narrativas científicas passaram a ser aceitas como dogmas culturaisdiscordâncias passaram a ser tratadas como heresias intelectuaisNaturalmente, isso não significa que a ciência em si seja uma religião. O método científico é uma ferramenta racional extremamente valiosa.O que assume características religiosas é a forma cultural como a ciência passa a ser tratada dentro de uma visão cientificista.

A ironia filosófica

Existe uma ironia interessante nesse processo.O cientificismo afirma que somente o conhecimento científico é válido.Contudo, essa própria afirmação não é científica.Ela não pode ser testada em laboratório, nem observada empiricamente. Trata-se de uma afirmação filosófica sobre a natureza do conhecimento.Ou seja, o cientificismo depende de uma afirmação que não pode ser justificada pelos próprios critérios que ele estabelece.

A ciência depende de pressupostos filosóficos

Outro ponto frequentemente ignorado é que a própria ciência depende de certos pressupostos que não podem ser provados cientificamente.Entre esses pressupostos estão:a confiabilidade dos sentidosa validade da lógicaa existência de um mundo externoa uniformidade da naturezaa relação de causalidade entre eventosNenhum desses princípios pode ser demonstrado por experimentos científicos. Eles são pressupostos filosóficos que tornam a ciência possível.Sem esses fundamentos, o próprio método científico não poderia funcionar.

O legado cultural do cientificismo

Mesmo após o colapso filosófico do positivismo lógico, a mentalidade cientificista permaneceu profundamente enraizada na cultura contemporânea.Isso aparece em expressões comuns no debate público, como:“isso não é científico”“cadê a prova científica?”“se não pode ser testado em laboratório, então não é conhecimento”Essas frases revelam uma visão simplificada do conhecimento humano, na qual o método científico é tratado como único caminho possível para a verdade.

Preparando o terreno para a política

Essa mentalidade não teve apenas consequências filosóficas.Quando a ciência passa a ser vista como a autoridade suprema da verdade, surge também a ideia de que a própria sociedade poderia ser organizada cientificamente.Essa crença teve grande influência sobre diversas ideologias políticas do século XX.Na próxima parte veremos como a tentativa de aplicar modelos científicos à organização da sociedade contribuiu para o surgimento de projetos de engenharia social em larga escala, alguns dos quais acabaram associados aos regimes totalitários do século XX.

Parte 5 — Cientificismo, engenharia social e o surgimento dos totalitarismos

Nas partes anteriores vimos como o empirismo moderno evoluiu para o positivismo e, posteriormente, para uma mentalidade cultural conhecida como cientificismo — a crença de que apenas o conhecimento científico seria legítimo.Essa mudança não teve apenas consequências filosóficas. Ela também influenciou profundamente a maneira como muitos pensadores passaram a enxergar a organização da sociedade.Quando a ciência começou a ser vista como a única forma confiável de conhecimento, surgiu também a ideia de que a sociedade poderia ser planejada e reorganizada cientificamente.Esse projeto ficou conhecido como engenharia social.

A ideia de administrar a sociedade cientificamente

Durante o século XIX, diversos pensadores começaram a defender que a política deveria ser substituída por uma administração científica da sociedade.Um dos primeiros a formular essa ideia foi Auguste Comte.Comte acreditava que a sociedade poderia ser estudada de forma científica, da mesma maneira que a física estuda a natureza. Ele chamou essa nova disciplina de sociologia.Segundo essa visão, cientistas e especialistas poderiam descobrir leis objetivas da organização social e, a partir delas, reorganizar a sociedade de maneira racional.A política, nesse modelo, deixaria de ser uma arena de debate moral e se tornaria uma questão técnica.

A tecnocracia

Essa mentalidade contribuiu para o surgimento da chamada tecnocracia, isto é, a ideia de que especialistas técnicos deveriam governar ou orientar as decisões políticas.Nesse modelo, decisões sobre economia, organização social ou planejamento estatal seriam justificadas como:conclusões científicas inevitáveisnecessidades técnicas da sociedadeexigências objetivas do progressoO debate moral e filosófico sobre essas decisões passa a ser visto como secundário ou irrelevante.

O perigo da engenharia social

Quando governos passam a acreditar que possuem conhecimento científico sobre como reorganizar a sociedade, surge a tentação de implementar projetos de transformação social em larga escala.No século XX, várias ideologias políticas afirmaram possuir bases científicas para suas propostas.Entre os exemplos mais conhecidos estão regimes autoritários que se apresentavam como projetos de reorganização racional da sociedade.O regime de Joseph Stalin afirmava basear suas políticas na interpretação científica da história proposta pelo marxismo.Segundo essa visão, o desenvolvimento histórico seguiria leis inevitáveis que conduziriam ao triunfo do socialismo.Essa interpretação foi utilizada para justificar vastos programas de planejamento econômico centralizado e engenharia social.

O uso de teorias pseudo-científicas

Outro exemplo ocorreu na Alemanha sob o regime de Adolf Hitler.Nesse caso, teorias raciais apresentadas como científicas foram utilizadas para justificar políticas de segregação, perseguição e extermínio.Essas teorias eram profundamente falhas do ponto de vista científico, mas o prestígio cultural da ciência serviu para dar aparência de legitimidade às políticas do regime.

A crítica ao cientificismo político

Diversos pensadores do século XX criticaram essa tentativa de aplicar métodos científicos à organização completa da sociedade.Entre eles está Friedrich Hayek.Hayek argumentava que sociedades humanas são sistemas extremamente complexos, compostos por milhões de decisões individuais. Segundo ele, a tentativa de planejar completamente a economia ou a sociedade com base em modelos científicos simplificados inevitavelmente leva a distorções e abusos de poder.Ele chamou essa tendência de “cientificismo nas ciências sociais”.

O problema fundamental

Conclusão geral

A ideia de que só devemos acreditar naquilo que pode ser empiricamente verificado teve origem em transformações filosóficas específicas da era moderna.Essa ideia influenciou o empirismo, foi radicalizada pelo positivismo e acabou gerando uma mentalidade cultural conhecida como cientificismo.Embora a ciência seja uma ferramenta extraordinária para estudar a natureza, a tentativa de transformá-la na única forma legítima de conhecimento pode levar a simplificações perigosas.A história do século XX mostra que, quando teorias científicas ou pseudo-científicas são usadas para justificar projetos de reorganização total da sociedade, o resultado pode ser a concentração extrema de poder político e graves violações da dignidade humana.Reconhecer os limites do cientificismo não significa rejeitar a ciência. Significa apenas reconhecer que o conhecimento humano é mais amplo do que qualquer método isolado — e que questões morais, filosóficas e humanas continuam sendo fundamentais para orientar a vida em sociedade.

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